Los Encardidos

Desde quando comecei a me interessar em escalada em rocha, um dos meus sonhos era escalar no Marumbi, coisa que na minha cabeça estava muito distante, que levaria anos para a primeira vez, para a minha surpresa em poucos meses tive a primeira oportunidade de escalar lá, desde então o fascínio por esse lugar só aumentou.

Uma das vias que sempre me brilhou os olhos foi a Los Encardidos, a maior via do Marumbi até então, hoje com 460m, sempre que eu via a clássica foto do Julio Nogueira e Chiquinho feita durante a conquista na sexta enfiada que é hoje, ficava imaginando como seria escalar uma via como essa.

No final da temporada de 2019, consegui acompanhar e fotografar do Abrolhos a tentativa da Lorena e do Sid, infelizmente não conseguiram completar por conta de uma chuva que tomou conta da montanha no final da tarde, coisa que é comum nessa época, infelizmente, pois estavam escalando muito bem e estavam bem rápidos, certamente terminariam.

Depois de alguns anos escalando com frequência e já ter feito algumas vias no Marumbi, comecei a me informar sobre ela para um projeto futuro, entrei em contato com vários escaladores conhecidos que entraram nela ou tinham informações para me ajudar, e o que praticamente todos me disseram basicamente foi: “Só vai! Vai dar boa!”. Foi aí que percebi que estava mais próximo do que eu imaginava, então comecei a me planejar para ir assim que houvesse uma janela decente de clima.

Com alguns dias de seca no verão, o primeiro fim de semana que prometia ser bom, no dia 06 de Março de 2020 eu e o Maurilio Hadas agilizamos todos os equipos e coisas necessárias e fomos já na sexta de tarde para a sede do clube, com a intenção de escalar no sábado, saímos do clube às 4h da manhã, porém como de costume havia uma grande nuvem negra cercando apenas o conjunto Marumbi, chegamos na base da via ainda de noite, estava tudo molhado, logo menos começou a garoar e chover. Não era pra ser o dia, acabamos voltando para a casa e escalamos apenas no Parque do Lineu no dia seguinte, onde fizemos a Maria Buana e Morcego.

Logo na semana seguinte, fiquei sabendo que o Murilo e Ezequiel pretendiam ir para o Marumbi, poucos dias antes do fim de semana o Murilo me convidou para ir junto com eles e entrar na Los, fiz de tudo para conseguir ir e logo na sexta estávamos partindo sentido Marumbi com tudo pronto no dia 13 de Março de 2020, nada mal para uma sexta-feira 13.

Chegamos no clube sexta de noite, desta vez com uma estratégia diferente, agilizamos os equipos, comida, material de bivaque e partimos para a base da via, onde jantamos e dormimos em uma caverna até as 4h da manhã, 5h10 começamos a escalada, ainda de noite tentando aproveitar ao máximo as três primeiras enfiadas que são as mais tranquilas e que terminamos às 6h11, na segunda enfiada enquanto o Zeki guiava, eu e Murilo relembramos que mais ou menos dois anos atrás estávamos aprendendo a escalar no curso básico do CPM na mesma turma, e quem diria que entraríamos numa via como aquela, realmente era um sonho de escalada.

A partir dali acabei guiando a quarta e quinta enfiada, onde tinha o famoso teto da quinta, algumas cordadas já desistiram ali por ter um lance mais duro de 8a, obviamente artificializei e mesmo assim não fica fácil, desde o princípio o meu principal objetivo era terminar a via, no famoso estilo french free, por não estar escalando tão forte assim para livrar esses lances duros em parede e também por ser a primeira vez entrando na via, queria conhecer ela inteira e não abriria mão disso por um lance.

Às 8h55 chegamos na base da primeira das fendas em móvel, na P6, que coisa linda, uma fenda vertical e contínua, com um tom de verde e cheia de musgos ao redor, fiquei impressionado com a beleza. Zeki se dispôs a guiar a primeira, dei seg e logo depois eu e Murilo seguimos atrás escalando com as mochilas.

Quando chegamos na base da segunda fenda, que eu guiaria no caso, pela primeira vez me deu um sentimento de não querer guiar, heheh, imponente, vertical, toda em móvel e craquelenta, essa enfiada era ainda maior e mais vertical, o que mais motivava era que quem guiava escalava mais leve, então toquei e terminamos mais essa enfiada às 10h41.

Chegamos na base do diedro de mato era meio-dia, o sol já tinha nos alcançado e começou a sugar, ali fizemos uma pausa mais longa para descansar e comer algo mais reforçado. Murilo puxou a guiada do diedro de mato, enfiada em comum com a via Paredão Norte e muito exigente fisicamente, nos sugou demais por conta do sol, terminamos era 13h54.

A penúltima enfiada deu trabalho, já com o cansaço acumulado e o sol rachando a cabeça, o rendimento caiu demais, chegando nos últimos lances, acabei tomando uma queda na última proteção, caindo cerca de 8m, o Chicão, a Dani e o Dudu que estavam fazendo a Passagem Oeste no Abrolhos conseguiram registrar a tentativa do lance, e logo depois metros abaixo após a queda, um belo de um voo, foi emocionante. Senti um pouco o pé esquerdo com a queda, mas nada de grave, segui e terminamos essa enfiada chegando na base da onda às 15h38, onde fizemos uma bela de uma pausa.

Abrigados do sol e descansando, a “Onda” nos encarava, era imponente e desafiadora, linda demais! Carregamos até aquele momento um camalot #5 que só seria usado ali, uma âncora durante toda a via, no último lance do artificial do teto, para virar ele. Antes que fosse tarde, para que terminássemos a escalada ainda de dia, começamos a escalar a última enfiada, uma bonita fissura vertical que leva até o teto, onde começa o artificial, terminamos ela com os últimos raios de sol, pouco tempo depois já escureceu tudo.

A partir dali nos desequipamos e seguimos a procura da trilha que havia no cume da torre dos sinos, um vara mato absurdo, cheio de caraguatá, gretas e difícil de transpor, levamos mais de uma hora varando mato para chegar na trilha do cume da torre que eu já conhecia quando havia feito a via Paredão Norte alguns meses atrás, a partir dali estava em casa, tudo conhecido e seguimos pela trilha noroeste, chegando no clube novamente meia-noite, totalizando cerca de 19h de atividade desde que começamos, e assim realizamos mais um sonho de escalada.

Croqui e relatos:

Croquis por: Chiquinho

Croqui: Chiquinho

2 comentários em “Los Encardidos

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